Segunda-feira, 21 de Abril de 2008

Vontade de Rever Joyce


Domingo chuvoso em São Paulo. Teatro Fecap.

A cantora, compositora e instrumentista Joyce faz 40 anos de carreira nesta noite, encerrando uma temporada de duas semanas que resultarão em um dvd comemorativo que contou com a participação de vários amigos/parceiros, novos e antigos, que estiveram com ela ali para celebrar.

Joyce sempre teve seu lugar de honra na minha discografia. Suas músicas começaram a me acompanhar cedo, mais especificamente em 1980 quando ela pela segunda vez enfrentou um Maracanãzinho lotado. Segunda vez ? Sim, minha geração a encontrava naquele momento, mas seu primeiro disco foi lançado em 1968 onde ela já nasceu musa, com texto e benção de Vinicius de Moraes na capa do Lp. Depois vieram mais um disco prosseguindo o conceito e as idéias do primeiro, e até um álbum gravado na Itália, onde com seu violão em punho, gravou outros compositores e enfrentou a ditadura de frente.

Aliás Joyce já nasceu polêmica, segundo ela mesma explicou ontem no palco . Até a sua chegada no mercado, no máximo compositores travestidos de almas femininas podiam falar das questões da mulher. Uma compositora levantando bandeiras e duvidas nem pensar. Mas já era tarde quando Joyce foi avisada disso e virou líder de 68 nas questões e tabus femininos, causando polêmica.

Seguiu em frente.

Quando a fase “Malu Mulher”, “TV Mulher” e “Mulher 80” chegaram ao Brasil , ela não sentiu-se mais deslocada e inadequada, sabia estar agora no momento certo. Elis Regina sempre atenta deu a partida e gravou a canção “Essa Mulher” colocando Joyce no lugar dela: o de grande compositora . Mas ela nunca quis pouco mesmo que parecesse ser modesta e plena de sentimentos hippies foi para um festival da Globo cantar sua “Clareana”, que ontem durante o show, passados 28 anos, tocou em silêncio seu violão enquanto uma platéia emocionada entoava em uníssono essa sua já velha canção. Sim porque Joyce nunca parou. Seus discos saem em profusão. Não espera mercados. Não prepara “revivals”. Mostra-se sempre disposta ao novo e tem uma obra hoje já vasta e consistente. A Europa a recebe de braços abertos desde que um Dj a descobriu e a lançou nas pistas, causando curiosidade sobre seu trabalho, que ela sacia em discos gravados por lá e que recebemos aqui em outra moeda. Não faz mal. Sua arte vale o ouro que merece.

E foi isso que vimos ontem: uma cantora madura e certa da beleza de sua obra. A segurança da competência. Desfiou um rosário de pérolas de seu repertório que arrepiou a todos. Sua mais nova amiga e companheira de guerra Zélia Duncan entrou no palco para com ela re-interpretar duas jóias “lado B”: “Minha Gata Rita Lee” e “Meio a Meio” conjugadas à um ótimo bate-papo.

Ao final e somente com um bis, Joyce sai do palco consagrada pelo amor que sempre passou com sua música.

E a noite fria de São Paulo recebeu o afago e o cobertor que merecia.

Sexta-feira, 18 de Abril de 2008

A Divina Vida da Atriz


Ontem num acesso de loucura cultural peguei uma ponte aérea e fui ao Teatro do Leblon ver “No Natal a Gente Vem te Buscar” de Naum Alves de Souza.
Encontro uma sala lotada de um público esperando rir muito.
Saio do teatro no meio de pessoas que choram muito.
Esse texto foi encenado pela primeira vez em São Paulo em 1978 e chegou ao Rio de Janeiro já na década de 80 pelas mãos de Marieta Severo.
Garoto curioso que sempre fui lembro claramente do sucesso que foi esta encenação, da quantidade de prêmios que ganhou e da famosa cena final em que aparecia uma geladeira acesa.
Como sempre fui precoce em meus desejos culturais, obviamente eu não tinha idade para assistir mas perturbava vizinhos e amigos de meus pais para me contarem tudo sobre o espetáculo.
A seguir consegui ver “Aurora da Minha Vida” e “Um beijo, Um abraço e Um aperto de mão” que completavam junto com “No Natal..” uma trilogia de espetáculos de Naum Alves.
Diante disso minha ansiedade encontrava-se em dose dupla quando me sentei no teatro.
Claudia Jimenez é uma grande atriz brasileira. Acostumada a grandes sucessos em que se utilizou de sua impagável qualidade de humorista de estilo único, Claudia aqui surpreende pela dor que seu personagem transmite em cena. O espetáculo apresenta a dosagem exata de lirismo e melancolia com alegria e histrionismo, mas a sensação que fica é de forte emoção que nos leva às lágrimas , principalmente na cena final em que Claudia arrebata os últimos possíveis espectadores que ainda possam estar dispersos.
Tal qual uma Giuletta Massina em “Noites de Cabiria”, ela transmite os sentimentos atônitos e desolados dessa solteirona que encarna em cena. Além disso demonstra a generosidade que o teatro lhe ensinou ao contracenar em momentos equilibrados com outros atores como ela brilhantes: Analu Prestes, Ernani Moraes e o estreante Rodrigo Phavanello que aproveitam a força do texto para terem seus cativantes momentos em cena.
Claudia Jimenez é pop. Quem compartilha de sua amizade sabe a vertiginosa montanha-russa que é compartilhar de sua vida. Polêmica, amorosa e contraditória deixa a todos apaixonados logo no primeiro encontro, no primeiro instante.
A atriz que ela traz consigo é um monstro sagrado. A linguagem interpretativa que ela utiliza em cena a torna inesquecível para quem a viu ou vê.
É dessa mulher que eu falo aqui. É para essa atriz que meu avião se dirigiu ontem à noite.
Salve Claudia Jimenez.
Salve Naum Alves de Souza e sua obra que nunca envelhece.
O sonho de se fazer bom teatro ainda não acabou.

Quinta-feira, 10 de Abril de 2008

Quando a Maré Vazar Vou Ver Adriana




Adriana Calcanhotto habita meus discos e nada mais desde sua chegada lá pelo inicio dos anos 90. Sua personalidade e talento fizeram alarde no mercado . Tem gente que até hoje prefere seu primeiro disco. Eu sempre gostei de ver Adriana seguir em frente. Acho que o tempo melhora suas idéias. Amadurece o seu palco.


Seis anos depois de “Cantada”, Adriana volta a apresentar novidades em “Maré” seu disco novo. A gravadora ofereceu uma audição em primeira mão para poucos num estúdio aqui em São Paulo e eu fui o primeiro a chegar. Numa sala de gravação e com o release na mão, presenciei as novas canções de Adriana em absoluto silêncio e concentração, coisa rara nos tempos de Ipod Shuffle em que uma música só voltará para você no próximo semestre. Se voltar.


Moreno Veloso, Kassin e Domenico, nomes conhecidos para iniciados e desconhecidos do grande público são seus companheiros de som há muito tempo e claro estão presentes aqui, sendo a canção “Maré” (“”Mais uma vez vem o mar se dar como imagem”) uma parceria dela com Moreno.


Dé Palmeira, eterno Barão Vermelho e de parcerias de ouro com Cazuza e Bebel Gillberto (“Eu Preciso Dizer Que Te Amo” e “Mais Feliz”) inaugura uma canção com Adriana em “Seu Pensamento” (“A uma hora dessas por onde andará seu pensamento / Dará voltas na Terra ou no estacionamento ?”)


Marina Lima é uma grande compositora brasileira. O tempo mostra isso a cada disco seu lançado. Musa de minha geração e irmã do poeta Antonio Cícero, com quem Adriana já fez de tudo, de parcerias a gravações de seus escritos, Marina gravou há um tempo atrás o tango “Três” que Adriana andou experimentando em shows fechados pelo Brasil, até regravá-lo aqui, somando-se à interpretação definitiva de Marina.


O compositor Péricles Cavalcanti sempre foi iluminado pelo trabalho de Adriana, compositor de projeção tímida no Brasil apesar de ter canções suas gravadas por gente como Caetano Veloso e uma bela particularidade poética, encontrou nela sua intérprete ideal, principalmente na canção “Medo de Amar Nº3” do álbum “Público” que arrastou multidões. Aqui no novo disco Péricles comparece com “Porto Alegre” (“Amarrado num mastro / Tapando as orelhas / Eu resisti ao encanto das sereias”) canção feita para ela com o encanto vocal da sereia Marisa Monte, sua mais nova parceira e amiga.


“Mulher Sem Razão” foi feita por Cazuza, Dé e Bebel Gilberto para a voz de Gal Costa que não sentiu-se seduzida por essa bela canção que foi ouvida por Adriana pela primeira vez em 1989 numa fita demo entregue a ela pela própria Bebel (“Sonhar só não dá em nada / É uma festa na prisão”)


Waly Salomão foi o poeta das estrelas. Jards Macalé seu parceiro constante de vida e underground. Adriana junta os dois em violão e poesia na canção "Teu Nome Mais Secreto" (“Não sei mais nada / Só sei que canto de sede dos teus lábios”). Todos os grandes nomes da música popular gravaram letras de Waly, mas Adriana sempre foi mais corajosa tendo sido sua parceria desde sempre, falando seus textos em shows ou propondo parcerias como esta, infelizmente a última.


Augusto de Campos, poeta concretista , também sempre esteve perto de Adriana em sua forma musical e aparece aqui em “Sem Saída” parceria com seu filho Cid Campos, canção gravada em arranjo de clima cinematográfico (“A estrada é muito comprida/ O caminho é sem saída”)


“Para Lá” inaugura o ansiado encontro de letra e música com Arnaldo Antunes que já havia gravado a canção em seu mais recente álbum, mas Adriana em seu registro leva os versos de Arnaldo para uma levada que a eterniza (“Diante do infinito um mosquito/ Em torno de um contorno gigante / Cada eco leva uma voz adiante”)


Torquato Neto, grande poeta tropicalista, nos deixou cedo e com grande obra. O músico Kassin não resistiu ao apelo dos versos e compôs “Um Dia Desses” canção de cunho pop music –ruralista que nunca mais saiu dos meus ouvidos após ouvi-la pela primeira vez e que ilumina o álbum de possibilidades radiofônicas.


“Onde Andarás” de Caetano Veloso e Ferreira Gullar andava pela cabeça de Adriana há muito tempo que encontrava sempre uma defesa a mais para não gravá-la. Passado os temores e desconfianças, a canção encontra sua intérprete (“Na esperança talvez de que o acaso / Por mero descaso / Me leve a você”).


Dorival Caymmi é um marco zero musical brasileiro. Suas canções sobre o mar e suas doces ironias poéticas sobre as agruras do amor estão escritas definitivamente na nossa história. Algumas canções suas estranhas e belas ficaram esquecidas na hora em que vários cantores ousaram regravar a sua obra. “Sargaço Mar” é uma dessas que Adriana escolhe para cantar ao som imponente do violão de Gilberto Gil e que encerra o disco (“Quando se for esse fim de som / Doida canção que não fui eu que fiz”)


Adriana está cantando lindo. Sua voz decidida assume a liderança do repertório que escolheu para cantar e as idéias que quis mostrar. Ao final, numa visão inesperada Adriana adentrou o recinto causando espanto e prazer a todos. Tem em suas mãos uma edição de luxo do novo álbum que trouxe de sua passagem por Portugal onde ele já foi lançado e onde apresentou em primeira mão seu novo show. Minha triste mochila que chegou vazia voltou para casa do jeito que chegou, apesar das dificuldades que demonstrei para devolver o cd quando passou pelas minhas mãos. Mas dia 18 de Abril esta aí. As lojas vão receber e todos vamos comprar. E ouvir . E ouvir. E ouvir Adriana Calcanhotto.

Terça-feira, 8 de Abril de 2008

Eu Não Consigo Entender Sua Lógica


Depois da overdose de documentários sobre Maria Bethânia, chegou a vez da vida de Caetano Veloso invadir as telas de cinema com o filme “Coração Vagabundo” dirigido pelo muito jovem Fernando Grostein Andrade dentro do festival “É Tudo Verdade” .
Ao contrário do emocionante “Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Tem” que traz o frescor de iluminar a obra de um cantor importante e esquecido pelo Brasil, o filme sobre Caetano já inicia nos dando a sensação de saciados.
Caetano, assim como Bethânia, sempre mantiveram suas carreiras e opiniões em pauta. Polêmico e atual, ele mantém sempre sua imagem de pé, formando incansáveis novas gerações de consumo de sua arte. Fui ali com a sede desses novos espectadores, mas logo me cansei do que vi.
Caetano cultiva um sentimento de desligamento dos que fingem ignorar o que está ao seu redor. Parece não perceber a altura do seu poder, e tudo o que gera com o seu sucesso. Todos parecem acreditar, mas com a aproximação da enorme lente, tudo nos faz crer que isso não é verdade e sim um eterno paradigma.
O filme mostra o seu poderio criado principalmente por Paula Lavigne, mostrada ali ainda como sua mulher e empresária, hoje só exercendo a segunda parte da situação. Tudo em sua volta parece estar à sua disposição: o Carnegie Hall esperando ansiosamente sua presença. David Byrne dizendo-se nervoso ao dividir o palco com ele, Gisele Bündchen aos seus pés, o Japão pedindo bis, as suítes presidenciais escolhidas a dedo. E Caetano nem aí. Fingindo não acreditar naquela vida real.
Além disso, o filme traz consigo o sempre mesmo problema maior: a super valorização de seus álbuns da fase exílio, sendo o carro chefe da trilha as canções desse período, numa repetição interminável que vemos acontecer em reportagens cults sobre sua carreira e em qualquer retrospectiva visual de sua obra, omitindo-se sempre a sua discografia no total.
Ao longo do documentário Caetano parece deslizar indiferente sobre uma esteira de tensões, até chegar o momento de demonstrar sua verdadeira essência ao rebelar-se contra uma declaração de Hermeto Paschoal que questiona sua inatingível carreira, chamando-o de “musiquinho”. Caetano começa em tom acústico e solene para imediatamente transformar-se em indignado e egocêntrico ao ser questionado sobre o assunto.
Ao final o público aplaude pouco e sai sem a sensação de força tamanha que o filme quis retratar.
Caetano fez minha cabeça. Caetano formou meu gosto musical. Mas com o tempo o império de suas meias-verdades andaram abalando o meu lado súdito. Nem tudo é verdade.

Sábado, 5 de Abril de 2008

Saudade Palavra Triste

Ontem através do cinema entrei em contato com os sentimentos da perda e do amor : assisti a três filmes sobre três grandes artistas brasileiros, cada um ao seu modo, que partiram e deixaram saudade e orgulho: o cantor Wilson Simonal, o ator Paulo Gracindo e o poeta Waly Salomão . Está na cidade a mostra “É tudo verdade”, festival de documentários que já está na sua 13º edição e que eu nunca tinha freqüentado por falta de interesse e que me chamou a atenção agora por especialmente trazer diversos filmes/biografias de artistas do meu interesse.

Wilson Simonal



Simonal foi o maior cantor popular desse país.

Para quem esteve presente a cena musical no inicio dos anos 70 sabe do que eu estou falando. É uma pena para quem não o conheceu.

Minha mãe comprava seus discos sem parar, a multidão que assistia seus shows ao vivo ou pela televisão era comandada por suas ordens musicais.

Negro, poderoso, carismático e cheio de talento, Simonal subiu e desceu com a fúria dos definitivos.

Sua vida pessoal controversa e sua arte são agora mostradas e esclarecidas no filme “Ninguém sabe o duro que eu dei”, filme do humorista Cláudio Manoel (Casseta & Planeta), Micael Langer e Calvito Leal.

O filme que poderá servir também como obra de ficção para os desavisados sem perder suas intenções, leva o espectador a um redemoinho de emoções comparáveis a um carro na contramão ou uma montanha russa em total desgoverno.

Meus sentimentos iluminaram minhas lembranças no começo do filme em que Simonal é apresentado como um dos artistas completos que o Brasil já teve. Além de seu brilhantismo musical, sua misencene fazia o publico presente entrar em êxtase total. Depoimentos como os de Chico Anysio, Miele e até mesmo o Rei Pelé durante o documentário atestam isso.

Penso nas celebridades musicais de hoje. É impossível uma unanimidade popular como Ivete Sangalo ter os percalços que Simonal teve em sua carreira. Hoje em dia o artista deseja a prosperidade que tem. Planeja o sucesso que terá. Neutraliza sua vida particular ou ilumina segundo as conveniências para sempre ter mais. Simonal é de um tempo em que o artista chegava em estado bruto e era jogado na arena com os leões. As coisas aconteciam por fatalismos e talento nato. O sucesso inevitável pegava a todos de surpresa, do vendedor da loja de discos à família do artista.

Simonal foi ingênuo e terrível. Abusado e coerente.

Pagou um preço alto num período difícil no Brasil em que a própria Elis Regina foi colocada em jogo por supostamente cantar para os militares. Acusado de dedo-duro e subtraído de seu talento de encantar multidões que tanto tinha sido exaltado, Simonal chega ao fim de sua vida em triste estado de esquecimento, falha que o filme tenta cobrir com muito sucesso.

A alegria da chegada ao cinema encontrando seus filhos Max de Castro e Simoninha ainda na porta, transformou-se em profunda emoção na saída quando novamente encontrei os dois e tive vontade de chorar. E chorei.

Viva Simonal.

Ainda que tarde. Ainda que cedo.

Quinta-feira, 3 de Abril de 2008

Paulo Gracindo


Paulo Gracindo ao contrario de Procópio Ferreira pôde ser assistido pela minha geração através do milagre brasileiro: a televisão. Seus personagens marcaram época e seu apogeu se deu nos anos 70 quando encarnou principalmente o prefeito Odorico Paraguaçu, o prefeito da fictícia cidade de Sucupira onde com um linguagem particular (“vamos aos finalmente”) mandava e desmandava na cidade.

Paulo, como todos os atores de sua geração, foi um bicho de teatro, a televisão a seguir foi a consequência inevitável e natural. Naquele tempo fazer novela, apesar do preconceito que imperava entre os grandes atores, ainda era sinônimo de contrução de personagens ao contrário de hoje em que todos não passam de rascunhos rápidos devido à inexperiência das carinhas bonitas que hoje são tão necessárias para prender os telespectadores. Tudo isso somado à pressa com que tudo é feito numa linguagem vídeo-clipe onde uma cena não pode demorar mais que 3 minutos.

Seu filho Gracindo Junior é o diretor e condutor oculto das entrevistas que reúnem Fernanda Montenegro, Lima Duarte e outros companheiros seus de cena. O filme é conduzido de forma convencional e com poucas surpresas mas com excelente abertura em que ele Paulo Gracindo aparece compondo alguns de seus personagens em rápidos fotogramas. Saiu de cena em 4 de setembro de 1995 aos 84 anos.

Waly Salomão


Waly Salomão foi o amigo que eu não tive.

Aliás a sessão parecia uma confraria de seus melhores parceiros e companheiros de vida. Um cinema lotado de pessoas pedindo por sua presença que tanto faz falta.

O diretor Carlos Nader, parceiro/amigo de Waly, filmou por horas, numa urgência premonitória e sem controle, o universo desse orgulho baiano das letras.

Waly chegou aqui em casa pelo modo que segundo ele mesmo transmitia melhor suas idéias e poesia : letrista de canções. Foi parceiro de Caetano, Macalé , Antonio Cícero e Adriana Calcanhotto em diversas músicas de sucesso.

Mutos anos se passaram até eu ver sua imagem. Somente nos anos 90 conheci o rosto daquele poeta que embalava os meus sonhos.

Finalmente pude ter um contato mais próximo e rápido na casa de Gilberto Gil em que ele me provocou a fazer gente dançar com sua poesia, o que rapidamente se deu sendo a faixa parte orgulhosa para mim do meu segundo disco de remix. Quando ele se foi, fiquei triste como quem perde um grande amigo, mistérios de sua presença. Waly deixava essa sensação em qualquer contato humano que ele tivesse, mesmo por minutos. Apesar de saber que muitos tinham defesas ao seu temperamento e que muitas vezes amor e ódio estiveram perto, não consigo imaginar alguém supondo ter uma vida normal após privar de sua energia vital.

O filme não faz distinção entre sua obra e sua persona. Assim foi sua vida, assim ele aparece na tela. Tudo misturado, tudo fluindo como uma coisa só. Ao final eu tinha um compromisso que desculpem a falha técnica, não consegui cumprir, aliás todos naquela sala foram para suas casas silenciosos e sem entender porque Waly não estava ali para nos abraçar e comemorar.

Sexta-feira, 28 de Março de 2008

Anuncio Classificado


Procura-se cantor de presença forte e voz aguda para ser líder de uma banda em formação.

Não paga-se bem.

Esse anuncio bem poderia ter aparecido nos classificados de um grande jornal no inicio dos anos 70, mas não foi bem assim que Ney Matogrosso surgiu na música do Brasil.

Já na casa dos 30 anos, hippie e feliz, Ney tinha uma amiga chamada Luli (que depois formou com sua amiga e parceira Lucina uma dupla já extinta) que conhecia uma turma que estava formando uma banda e precisava de um vocalista. Ney acostumado a cantar por prazer, tendo atuado como ator quase de forma amadora, e até ter feito luz para um show de Caetano, topou ir ao encontro deles para ver qual era. Chegando no ensaio perguntou :

“Aonde é o meu lugar no palco ?

Reponderam: "É ali."

Ele disse: “Então aqui vou fazer o que eu quiser ok ?

Todos concordaram sem saber o que se daria naquela noite dentro de um lugar chamado “Casa de Badalação e Tédio", um porão escondido embaixo do Teatro Ruth Escobar.

O público presente misturava terror e êxtase.

A liberdade sexual e democrática que hoje desfrutamos nem pensava em habitar o Brasil daquele momento. Todos os preconceitos estavam à mostra. Todos os medos à flor da pele. E foi esse país que Ney encontrou para se manifestar pela primeira vez e para sempre.

O grupo Secos & Molhados chegava aos ouvidos populares e alcançava vendagens inacreditáveis até então no mercado fonográfico brasileiro. Eu em casa, como bom filho único, escondido debaixo da saia de minha mãe, assistia extasiado a apresentação deles no Maracanãzinho. Sim, o show foi transmitido ao vivo pela TV Globo. Mesmo no tempo em que aquela androgínia explícita não era permitida, os grandes veículos não conseguiram conter a fúria daquela novidade totalmente absorvida pelos loucos e caretas de plantão daquele momento. E, como num orgasmo que tanto prazer nos dá e dura tão pouco, eles também não duraram . Intrigas financeiras e egos exaltados abortaram a possível trajetória brilhante do grupo e chegando junto com o lançamento do segundo LP, a noticia que caiu feito a bomba de Hiroshima: os Secos & Molhados” não existiam mais.

Ney Matogrosso com a calma sabedoria dos que sabem o que querem e não se desesperam, recebeu um convite da gravadora Continental para continuar ali sua carreira solo. Ledo engano se alguém pensou dentro daquela multinacional que ele faria um trabalho de fácil acesso e comercial. Em 1975 Ney lançava “Agua do Céu - Pássaro” seu primeiro disco sozinho e o show “O Homem de Neanderthal”. O público fugiu. O Teatro do Hotel Nacional deixava suas cadeiras vazias toda a noite. O disco (hoje um clássico) ninguém entendeu.

E o Ney nem aí. Firme e tranqüilo em seus propósitos.

A seguir encontra o visionário empresário Guilherme Araújo e lança o disco/show Bandido que trazia a canção inédita de Rita Lee “Bandido Corazon” (é através de Ney que Rita conhece Roberto de Carvalho, guitarrista e tecladista dele nessa época) que teve ótima execução nas rádios trazendo Ney de volta para as massas populares.

Bons ventos começaram a soprar e nunca mais pararam de anunciar ótimos presságios.

Ney inicia uma carreira vitoriosa, inquieta e brilhante nos céus do Brasil.

Depois de muito sucesso como astro pop e de encher todos os ginásios desse país, Ney sentiu de novo o necessário sinal de mudar. E de novo rompendo os muros da acomodação aparece de terno branco e poucos instrumentos no show “Pescador de Pérolas” em que encarou de frente um público acostumado à sua nudez coberta de penas e brilhos .

Hoje apresenta seus projetos com exata dosagem: alterna o histrionismo com a suave elegância onde a essência do canto é mais valorizada que os recursos cênicos.

E tem o público de Ney. Senhoras e senhores. Meninos e meninas. Todos irmanados na mesma excitação que chega sem dúvida ao plano sexual. Todos querem e desejam sua arte misturada ao que ele emana fisicamente. Sua provocação sexual não tem idade para ser aceita.

Agora o Brasil recebe Ney Matogrosso de novo.

Inclassificável.

Como ele sempre quis ser visto e ouvido.

No final do ano fui ao início da temporada desse novo show aqui em São Paulo que anunciava um repertório inédito, um de seus ciclos que ele sempre alterna com projetos-homenagens (Ângela Maria , Chico Buarque Tom Jobim), idéias fechadas num único tema ( "Batuque") e a fase de interpretar compositores novos. Todas lhe caem bem.

Mas dessa vez foi demais.

Sou um eterno saudosista do que não vi. Sofro com cada show que não pude assistir por causa do tempo anterior a mim que eu não pude alcançar.

Com Ney sempre foi diferente. Nunca senti falta de seu passado porque sempre tive muito prazer em vê-lo no presente. Mas o showInclassificáveis” que volta agora à São Paulo mistura minhas duas emoções: o Ney de hoje olha para o início de sua carreira e faz a conjugação exata de tudo que ele quis nos mostrar esses anos todos: cenário, figurino, o mistério de sua presença, a exuberância de seu talento como cantor e a inteligência para escolher repertorio, encontram aqui sua forma definitiva.

Muitas vezes levantei e aplaudi de pé em total descompasso com o resto do público como que sinalizando da platéia, e sem modéstia nenhuma, que ele estava certo em tudo que estava apresentando ali. Além disso Ney retomou um antigo prazer que havia sido esquecido lá pelos anos 80 : mostrar o trabalho primeiro no palco sem disco, aguçando nossos sentidos para a chegada do produto. Fiquei até essa semana desesperado para ouvir certas canções desse novo disco que agora finalmente é lançado com jóias como “Coisas da Vida” de Alzira Espindola e Itamar Assumpção (“Existem coisas na vida / das quais até Deus duvida/ É o diabo à quatro querida”), “Fraterno” de Pedro Luis (“Amanhã te escrevo mais nesse diário moderno/ Junto às saudações finais mando um beijo fraterno”) e releituras modernas e maduras de canções que já passearam pelo seu repertório como “Mal Necessário”, “O Tempo Não Pára” e “Mente, Mente”.

Viva Ney Matogrosso que envelhece com a sabedoria e a juventude eternas enquanto existir seu canto.


“Não vou lamentar a mudança que o tempo traz, não

O que já ficou pra trás

O tempo a passar sem parar jamais

Já fui novo sim

De novo não

Ser novo pra mim é algo velho

Quero crescer

Quero viver o que é novo sim

O que eu quero assim é ser velho”

“Lema” (Carlos Rennó e Lokua Kanza)

Quarta-feira, 19 de Março de 2008

Finalmente Uma Nova Cantora


Há pouco tempo recebi um email: Você conhece Marcia Castro ? Respondi que não.

Em seguida recebo outro: Você já ouviu Márcia Castro ?. Aí foi demais.

A curiosidade me mordeu.

Descobri que era baiana, provocativa e teatral e começava uma pequena temporada para lançar seu disco aqui no Teatro Crowne Plaza em São Paulo.

Domingo à noite, Sesc Vila Mariana, encontro com ela onde estávamos os dois para assistir a um show de Zélia Duncan. Linda e tímida chegou até mim e eu disse a ela que bons ventos estavam a seu favor, que emails estavam atravessando o espaço e comentando sua prescença. Recebo em resposta seu cd, que imediatamente me chama a atenção pela capa: num estilo Almodóvar a foto mostra Márcia segurando um cachorro pela coleira, ao lado de uma prostituta com uma placa de trânsito escrito "Pare", diante disso o titulo do álbum não poderia ser outro: Pecadinho.

Ficamos conbinados que eu iria ao seu show na terça feira.

Chego no Crowne onde encontro um bom publico e me sento para assistí-la . Aqui abro um parênteses para falar do atual momento feminino na musica.

Muito tem se falado de novas cantoras. Muito se tem investido nisso. O engraçado é que a minha prateleira continua vazia .

Faço um exercício diário de não ser saudosista e sempre me envolver com o novo sem amarras com o passado. Não comparo ninguém. Não procuro nos novos motivos e resquícios de jóias anteriores. Por isso digo sem medo: cadê as novas cantoras ? Cadê os novos talentos que algumas gravadoras e mídia estão insitindo em nos fazer acreditar ?

Ontem meu coração se encheu de alegria e entusiasmo.

Êta menina danada pra escolher repertório. Pelo palco passaram inesperadas canções de Itamar Assumpção, Sergio Sampaio e Zeca Baleiro e um Belchior ( que eu não digo qual pra você morrer de curiosidade) que deixou meus nervos à flor da pele e minha cara inchada de lágrimas.

Marcia Castro lança no tablado novos compositores como Luciano Salvador Bahia (atentem pra esse nome) e Roque Ferreira, que não são extamente novidade para quem está de olho, mas que caem como uma luva no repertório dela.

Márcia tem uma presença andrógina em cena. Masculina sem ser forte. Feminina sem ser frágil. Mistura dubiedades dentro de um figurino excelente.

Sem ser exatamente uma comparação mas funcionado como figura de linguagem e para você me entender melhor, Márcia mistura uma Gal 69 com Marilia Medalha. Intérprete agressiva e definitiva. O canto é consequência disso.

Se alguém perguntar por mim, diga que estarei toda terça feira no Crowne Plaza, até o fim da temporada, assistindo finalmente e definitivamente surgir uma nova cantora que chegou ao Brasil.

Procure lá:
http://www.marciacastro.com.br/