
Procura-se cantor de presença forte e voz aguda para ser líder de uma banda em formação.
Não paga-se bem.
Esse anuncio bem poderia ter aparecido nos classificados de um grande jornal no inicio dos anos 70, mas não foi bem assim que Ney Matogrosso surgiu na música do Brasil.
Já na casa dos 30 anos, hippie e feliz, Ney tinha uma amiga chamada Luli (que depois formou com sua amiga e parceira Lucina uma dupla já extinta) que conhecia uma turma que estava formando uma banda e precisava de um vocalista. Ney acostumado a cantar por prazer, tendo atuado como ator quase de forma amadora, e até ter feito luz para um show de Caetano, topou ir ao encontro deles para ver qual era. Chegando no ensaio perguntou :
“Aonde é o meu lugar no palco ?
Reponderam: "É ali."
Ele disse: “Então aqui vou fazer o que eu quiser ok ?
Todos concordaram sem saber o que se daria naquela noite dentro de um lugar chamado “Casa de Badalação e Tédio", um porão escondido embaixo do Teatro Ruth Escobar.
O público presente misturava terror e êxtase.
A liberdade sexual e democrática que hoje desfrutamos nem pensava em habitar o Brasil daquele momento. Todos os preconceitos estavam à mostra. Todos os medos à flor da pele. E foi esse país que Ney encontrou para se manifestar pela primeira vez e para sempre.
O grupo Secos & Molhados chegava aos ouvidos populares e alcançava vendagens inacreditáveis até então no mercado fonográfico brasileiro. Eu em casa, como bom filho único, escondido debaixo da saia de minha mãe, assistia extasiado a apresentação deles no Maracanãzinho. Sim, o show foi transmitido ao vivo pela TV Globo. Mesmo no tempo em que aquela androgínia explícita não era permitida, os grandes veículos não conseguiram conter a fúria daquela novidade totalmente absorvida pelos loucos e caretas de plantão daquele momento. E, como num orgasmo que tanto prazer nos dá e dura tão pouco, eles também não duraram . Intrigas financeiras e egos exaltados abortaram a possível trajetória brilhante do grupo e chegando junto com o lançamento do segundo LP, a noticia que caiu feito a bomba de Hiroshima: os Secos & Molhados” não existiam mais.
Ney Matogrosso com a calma sabedoria dos que sabem o que querem e não se desesperam, recebeu um convite da gravadora Continental para continuar ali sua carreira solo. Ledo engano se alguém pensou dentro daquela multinacional que ele faria um trabalho de fácil acesso e comercial. Em 1975 Ney lançava “Agua do Céu - Pássaro” seu primeiro disco sozinho e o show “O Homem de Neanderthal”. O público fugiu. O Teatro do Hotel Nacional deixava suas cadeiras vazias toda a noite. O disco (hoje um clássico) ninguém entendeu.
E o Ney nem aí. Firme e tranqüilo em seus propósitos.
A seguir encontra o visionário empresário Guilherme Araújo e lança o disco/show Bandido que trazia a canção inédita de Rita Lee “Bandido Corazon” (é através de Ney que Rita conhece Roberto de Carvalho, guitarrista e tecladista dele nessa época) que teve ótima execução nas rádios trazendo Ney de volta para as massas populares.
Bons ventos começaram a soprar e nunca mais pararam de anunciar ótimos presságios.
Ney inicia uma carreira vitoriosa, inquieta e brilhante nos céus do Brasil.
Depois de muito sucesso como astro pop e de encher todos os ginásios desse país, Ney sentiu de novo o necessário sinal de mudar. E de novo rompendo os muros da acomodação aparece de terno branco e poucos instrumentos no show “Pescador de Pérolas” em que encarou de frente um público acostumado à sua nudez coberta de penas e brilhos .
Hoje apresenta seus projetos com exata dosagem: alterna o histrionismo com a suave elegância onde a essência do canto é mais valorizada que os recursos cênicos.
E tem o público de Ney. Senhoras e senhores. Meninos e meninas. Todos irmanados na mesma excitação que chega sem dúvida ao plano sexual. Todos querem e desejam sua arte misturada ao que ele emana fisicamente. Sua provocação sexual não tem idade para ser aceita.
Agora o Brasil recebe Ney Matogrosso de novo.
Inclassificável.
Como ele sempre quis ser visto e ouvido.
No final do ano fui ao início da temporada desse novo show aqui em São Paulo que anunciava um repertório inédito, um de seus ciclos que ele sempre alterna com projetos-homenagens (Ângela Maria , Chico Buarque Tom Jobim), idéias fechadas num único tema ( "Batuque") e a fase de interpretar compositores novos. Todas lhe caem bem.
Mas dessa vez foi demais.
Sou um eterno saudosista do que não vi. Sofro com cada show que não pude assistir por causa do tempo anterior a mim que eu não pude alcançar.
Com Ney sempre foi diferente. Nunca senti falta de seu passado porque sempre tive muito prazer em vê-lo no presente. Mas o show “Inclassificáveis” que volta agora à São Paulo mistura minhas duas emoções: o Ney de hoje olha para o início de sua carreira e faz a conjugação exata de tudo que ele quis nos mostrar esses anos todos: cenário, figurino, o mistério de sua presença, a exuberância de seu talento como cantor e a inteligência para escolher repertorio, encontram aqui sua forma definitiva.
Muitas vezes levantei e aplaudi de pé em total descompasso com o resto do público como que sinalizando da platéia, e sem modéstia nenhuma, que ele estava certo em tudo que estava apresentando ali. Além disso Ney retomou um antigo prazer que havia sido esquecido lá pelos anos 80 : mostrar o trabalho primeiro no palco sem disco, aguçando nossos sentidos para a chegada do produto. Fiquei até essa semana desesperado para ouvir certas canções desse novo disco que agora finalmente é lançado com jóias como “Coisas da Vida” de Alzira Espindola e Itamar Assumpção (“Existem coisas na vida / das quais até Deus duvida/ É o diabo à quatro querida”), “Fraterno” de Pedro Luis (“Amanhã te escrevo mais nesse diário moderno/ Junto às saudações finais mando um beijo fraterno”) e releituras modernas e maduras de canções que já passearam pelo seu repertório como “Mal Necessário”, “O Tempo Não Pára” e “Mente, Mente”.
Viva Ney Matogrosso que envelhece com a sabedoria e a juventude eternas enquanto existir seu canto.
“Não vou lamentar a mudança que o tempo traz, não
O que já ficou pra trás
O tempo a passar sem parar jamais
Já fui novo sim
De novo não
Ser novo pra mim é algo velho
Quero crescer
Quero viver o que é novo sim
O que eu quero assim é ser velho”
“Lema” (Carlos Rennó e Lokua Kanza)