
Wilson Simonal foi o maior cantor popular desse país. Para quem esteve presente a cena musical no inicio dos anos 70 sabe do que eu estou falando. É uma pena para quem não o conheceu. Minha mãe comprava seus discos sem parar, a multidão que assistia seus shows ao vivo ou pela televisão era comandada por suas ordens musicais. Negro, poderoso, carismático e cheio de talento, Simonal subiu e desceu com a fúria dos definitivos. Sua vida pessoal polêmica e sua arte são mostradas agora no filme Ninguém Sabe o Duro Que Eu Dei, filme do humorista Cláudio Manoel (Casseta & Planeta), Micael Langer e Calvito Leal. O filme, que poderá servir também como obra de ficção para os desavisados sem perder suas intenções, leva o espectador a um redemoinho de emoções comparáveis a um carro na contramão ou uma montanha russa fora de controle.
Logo no início do filme, as minhas lembranças de menino se iluminaram quando Simonal é apresentado como um dos artistas mais completos que o Brasil já teve. Além de seu brilhantismo musical, sua performance em cena fazia o publico entrar em êxtase total. E só dava ela na vitrola da minha mãe. Ditadura e repressão eram assuntos desconhecidos pela maioria dos brasileiros que acreditavam na falsa prosperidade colocada nos anúncios do governo daquele período. Por isso eu não entendi nada quando o Simonal deixou de ser a trilha sonora lá de casa. Ninguém explicou. Ninguém perguntou.
Penso nas celebridades musicais de hoje. É impossível uma unanimidade popular como Ivete Sangalo ter os percalços que o Simonal teve em sua carreira. Hoje em dia o artista deseja a prosperidade que tem. Planeja o sucesso que terá. Neutraliza ou ilumina sua vida particular segundo as conveniências para sempre ter mais. Simonal é de um tempo em que o artista chegava ao estrelato em estado bruto e era jogado na arena com os leões. As coisas aconteciam por fatalismos e talento nato. O sucesso pegava a todos de surpresa, do vendedor da loja de discos à família do artista.
Simonal foi ingênuo e terrível. Abusado e coerente. Pagou um preço alto num período difícil no Brasil em que a própria irrepreensível Elis Regina foi colocada em jogo por supostamente cantar para os militares. Acusado de dedo-duro e subtraído de seu talento de encantar multidões que tanto tinha sido exaltado, Simonal chega ao fim de sua vida em triste estado de esquecimento, uma vergonha nacional que o filme traz a tona com muito sucesso.
Minha alegria ao encontrar seus filhos Max e Simoninha na entrada do cinema, transformou-se em profunda emoção ao final da exibição, quando novamente encontrei os dois e tive vontade de chorar. E chorei.
Salve Wilson Simonal.
Ainda que tarde. Ainda que cedo.
1 comentários:
Dá-lhe Simona!
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